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Apesar de ser louvado como uma solução para a poluição motora das urbes, o carro elétrico utiliza baterias de lítio, material cuja extração é realizada via mineração, atividade de alto impacto ambiental. O assunto foi tema de reportagem no UOL neste ano e no The Guardian em 2020. Para Bruno Milanez, engenheiro de produção e professor da Universidade Federal de juiz de Fora (UFJF), a mineração é tão danosa ao meio ambiente que não é possível sequer falar em “mineração sustentável”, mas, no máximo, em “mineração responsável”. As baterias de lítio também são largamente utilizadas em usinas solares e eólicas, que dividem com os modais elétricos o protagonismo no mercado da energia chamada de “sustentável”
O que também não ajuda é maneira como o lítio deve ser manipulado para que possa ser usado nas baterias. O principal método de refino do mineral é a decantação em piscinas instaladas em locais como o deserto do Atacama, no Chile, que facilitam a evaporação da água. O processo de “refino” da substância salínica da qual o lítio será extraído precisa de enormes quantidades de água, geralmente retirada de aquíferos ou rios próximos. Na Bolívia, que possui as maiores reservas do globo do metal e cuja exploração ainda patina, já chegaram a ser utilizados 50 mil litros de água por dia um uma única área.
Partido do Minério
Em um artigo publicado em 2017, o professor Bruno Milanez aponta que, ao contrário do que as próprias mineradoras tentam promover, os impactos da atividade vão muito além da abertura da vegetação para as escavações. Além das mudanças na paisagem, a mineração ainda causa grande quantidade de emissões ao longo de sua cadeia de extração, alto consumo de água e contaminação de aquíferos e cursos d’água, bem como impactos para as comunidades que vivem nas áreas adjacentes às minas.
“Se não identificarmos de forma precisa os diferentes impactos socioambientais das atividades de extração mineral em larga escala e explicitarmos seu alcance nas dimensões geográfica e temporal, não seremos capazes de criar políticas suficientemente eficazes para conter os danos causados por essa atividade. Ao contrário, aceitaremos legislações cada vez mais frágeis e flexíveis, como as que vêm sendo propostas tanto no nível federal, quanto no estado de Minas Gerais”, escreve Bruno Milanez.
Outro estudo, publicado em 2019 na Revista da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Geografia (ANPEGE), avalia que o setor de mineração no Brasil tem se preocupado muito pouco com as terras, a população e as leis do país onde desenvolve suas atividades.
“O Brasil segue a implementar o modelo de desenvolvimento neoextrativista, orientado para rápida e massiva exploração dos recursos naturais para exportação, mas agora associado a políticas econômicas ultraliberais, privatistas e de desregulação, acrescentado por ações marginais do próprio Estado: coniventes com crimes; promotor de inconstitucionalidades, práticas antidemocráticas e fake news; além de realizador de ameaças recorrentes a opositores, às instituições da república e aos direitos das minorias”, escrevem os autores.
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Apesar disso, o setor pratica de maneira forte o lobby junto aos governos e representantes legislativos, como indicou outra pesquisa realizada em 2020 . Assinado por Caroline Guimarães, Helton Lucena e Bruno Milanez, o estudo analisou dados públicos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que mostravam diversas e generosas doações de mineradoras às campanhas de candidatos a deputado de Minas Gerais.
Mineradoras em êxtase, mas preocupadas
Enquanto a Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração (ABM) celebra os estímulos ao setor no Brasil, o Conselho Internacional de Mineração e Metais (ICCM, da sigla em inglês) alerta para uma demanda que talvez as mineradoras não consigam suprir. A previsão do ICCM é de que a necessidade global do metal suba dos atuais 350 mil toneladas por ano para cerca de 3 milhões — o que é alarmante para as empresas do setor, que têm um capacidade de extração que se aproxima de 1 milhão de toneladas ao ano.
Ainda que algumas projeções apontem que há níquel e lítio suficientes para fabricar 14 milhões de carros até o fim de 2023, uma matéria da Nature mostra que a ciência que trabalha com geração de energia tem trabalhado em duas frentes. Uma é a diminuição ou completa remoção de metais nos componentes das baterias. Outra é o investimento na reciclagem de baterias, de maneira a reutilizar tanto quanto possível dos preciosos recursos gastos na fabricação dos dispositivos.
Com a demanda em alta, o preço do minério vai continuar a subir, o que deve adiar ainda mais a tão sonhada queda nos preços dos carros elétricos.
Elétricos no Brasil
Atualmente, a Renault gosta de se gabar pela venda do carro elétrico mais barato do Brasil, o Kwid E-tech. O veículo sai por modestos 146 mil reais. Bem menos do que o meio milhão de reais cobrado por um Tesla, é verdade, mas mais do que o dobro dos 60 mil cobrados pela versão que roda com petróleo.
Há promessa de concorrência no horizonte. A brasileira Mileto pretende lançar um elétrico nacional custando 99 mil reais ainda em 2023.
As vendas dos elétricos no país estão melhores a cada ano, mas ainda muito longe dos líderes no consumo desse tipo de transporte. Por aqui, os veículos que carregam na tomada alcançavam 0,3% do contingente de carros nas ruas brasileiras. Nos Estados Unidos, já aponta-se que a ultrapassagem da marca de 5% do parque de veículos vendidos aponta para uma adoção em massa em um futuro próximo.

